A inteligência artificial deixou de ser apenas uma possibilidade futura para começar a integrar atividades concretas de fiscalização. Segundo divulgação institucional do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), soluções tecnológicas já estão sendo utilizadas para apoiar pesquisas, examinar documentos, identificar riscos e organizar o trabalho das equipes de controle externo.

O avanço chama a atenção não apenas pelas ferramentas apresentadas, mas principalmente pela forma como a tecnologia foi incorporada aos processos institucionais: como apoio à análise técnica, com limites definidos e preservação da responsabilidade humana pelas decisões.

Tecnologia aplicada ao controle externo

Em agosto de 2026, o TCEMG apresentou um conjunto de iniciativas de inteligência artificial desenvolvido para fortalecer suas atividades. A experiência demonstra que a transformação digital pode alcançar diferentes etapas da fiscalização, desde a pesquisa de normas até a seleção de processos que exigem atenção prioritária.

O aspecto mais relevante é a integração dessas soluções à rotina do órgão. A inteligência artificial não aparece como um projeto isolado, mas como parte de uma estratégia voltada à eficiência, à ampliação da capacidade de análise e à prevenção de falhas.

Principais soluções apresentadas

  • Leis e Decretos IA: apoio à pesquisa e à interpretação de normas.
  • Barramento de Auditores: integração de informações entre equipes de auditoria.
  • ChatUAI: assistente institucional para apoiar consultas e rotinas internas.
  • Painel de Emendas Parlamentares com IA: acompanhamento e análise de emendas.
  • Editais de Concurso Público com IA: exame automatizado de documentos e identificação de possíveis inconsistências.
  • Radar de Processos Sensíveis: seleção de processos que demandam acompanhamento prioritário.

Como a IA pode ampliar o exame de editais

A análise de editais de concurso público é um exemplo concreto do potencial dessa tecnologia. O sistema utilizado pelo Tribunal já identificava inconsistências, mas apenas uma parcela dos editais considerados mais problemáticos recebia exame humano detalhado.

Com a inteligência artificial, tornou-se possível comparar o conteúdo dos editais com a legislação aplicável e apontar padrões de possível não conformidade em poucos segundos. O resultado é uma análise inicial mais abrangente, capaz de direcionar o trabalho dos servidores para os pontos que realmente exigem avaliação técnica.

O fluxo permanece organizado: o edital é enviado, a ferramenta realiza a verificação inicial, apresenta as inconsistências e permite que o órgão fiscalizado confirme ou justifique as informações. Depois disso, a equipe técnica faz a revisão e define as providências cabíveis.

A decisão continua humana

A utilização de inteligência artificial não transfere à máquina a responsabilidade de analisar ou julgar. A tecnologia funciona como instrumento de apoio, enquanto a validação dos achados permanece com o corpo técnico e a decisão continua sob responsabilidade das autoridades competentes.

Essa separação é essencial para preservar a segurança jurídica, a transparência e a possibilidade de revisão. A ferramenta pode organizar dados, apontar riscos e aumentar a capacidade de fiscalização, mas não substitui a avaliação profissional nem o dever de fundamentação.

Infraestrutura e capacitação vêm primeiro

A experiência do TCEMG também evidencia que a adoção de inteligência artificial depende de uma base institucional adequada. Modernização de computadores, segurança dos acessos, capacitação dos servidores, integração de dados e planejamento de tecnologia são condições necessárias para que as ferramentas funcionem de forma segura e produzam resultados confiáveis.

Portanto, antes de escolher uma solução de IA, o órgão público deve avaliar a qualidade das informações disponíveis, a capacidade de sua equipe, os controles de segurança e as regras de governança que orientarão o uso da tecnologia.

O que o controlador interno municipal pode aprender

Para o controle interno municipal, a principal lição é começar pelo problema que precisa ser resolvido. Processos analisados apenas por amostragem, grande volume de documentos, repetição de verificações e dificuldade para identificar situações de maior risco são exemplos de pontos em que a tecnologia pode oferecer apoio relevante.

A adoção deve ser gradual, documentada e supervisionada. O objetivo não é substituir o servidor, mas ampliar sua capacidade de prevenção, permitir análises mais abrangentes e concentrar o trabalho humano nas situações que exigem experiência, interpretação e julgamento técnico.

Fonte: texto elaborado pela AMI Consultoria Pública com base em informações divulgadas institucionalmente pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais em agosto de 2026.